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sábado, 1 de fevereiro de 2025

Breve descrição da cidade de Lagos

De olhos postos no mar...

«Ela expunha-se à beira-mar, formosa e não segura, como um fruto tentador à mercê de quem passa.»

Prof. José Hermano Saraiva


Fechada nas suas muralhas, Lagos é um dos abrigos mais acolhedores da costa portuguesa. As muralhas (monumento nacional), edificadas nos reinados de D. Manuel I, D. João II e D. Filipe I, envolviam completamente a cidade para a defender da pirataria e das frotas hostis.

As suas ruas estreitas denunciam um passado feito de mistério e de descobrimentos ornados a ouro e a marfim. Quase todas conduzem a agradáveis praças e jardins, algumas com esplanadas que permitem usufruir da mística atmosfera que envolve a cidade.

A brancura do casario não passa despercebida. Revela a busca constante por ambientes mais frescos. As casas algarvias, em muito influenciadas pelas técnicas trazidas de África, apresentam vulgarmente barras coloridas que emolduram portas e janelas. As chaminés, de configurações e cores variadas, foram uma das mais populares formas de artesanato. As suas formas, ora revelam influências árabes, assumindo a forma de minaretes, ora religiosas, lembrando campanários de igrejas.

sábado, 4 de junho de 2022

Breve História de Faro

As origens da cidade de Faro remontam ao século VIII a.C., período da colonização fenícia do Mediterrâneo Ocidental, durante o qual integrou um amplo sistema comercial, baseado na troca e comércio de produtos agrícolas, peixe e minérios. Com efeito, aos fenícios se ficou a dever o topónimo Ossónoba, que derivou da expressão “Osson ébá”, cujo significado era “armazém no sapal”. 

Entre os séculos III a.C e IV d.C., Ossónoba integrou a província romana da Lusitânia, assumindo grande importância ao nível regional, comprovada por escavações arqueológicas realizadas ao longo do século XX no largo da Sé, que revelaram os vestígios do forum e do templum romano (a cerca de três metros do nível atual) e permitiram concluir que a cidade chegou inclusive a cunhar moeda. 

A prosperidade de Ossónoba residia em boa parte na produção de garum, uma pasta de peixe muito apreciada na época, que os produtores locais exportavam para diversas cidades do Império romano. A importância das atividades marítimas na “Faro romana” encontra-se perfeitamente testemunhada no bonito mosaico do deus Oceano, que se encontra em exposição no Museu Municipal de Faro. 

Com a desagregação do Império Romano no século V, Ossónoba integrou o Reino Visigótico da Península Ibérica. Totalmente cristianizada, a cidade passou a designar-se Santa Maria de Ossónoba, mantendo uma posição proeminente no contexto regional, uma vez que foi sede de Bispado.

Em 713, a cidade foi ocupada pelos mouros. No entanto, nos 2 séculos seguintes uma importante comunidade cristã (moçárabes) viveu aqui sob domínio Árabe. No século IX, passou a designar-se Santa Maria Ibn Harun, assim chamada em honra do fundador da Dinastia dos Banu Harun, Emires da Taifa de Santa Maria do al-Gharb.

Em 1249 as tropas do Rei D. Afonso III tomaram a cidade aos mouros, mas grande parte da comunidade muçulmana continuou a viver em Faro, pois recebeu carta de foral do rei D. Afonso III em 1269, garantindo liberdade de culto e o direito de conservar propriedade, mediante o pagamento de um imposto especial. Neste período, convivem em Faro as três grandes religiões do Livro: cristão, hebreus e muçulmanos, e a cidade passa a designar-se Santa Maria de Faaron, topónimo que até ao séc. XVIII irá evoluindo para Farom, Farão e Faro.

A política expansionista da Dinastia de Avis, e a sua aposta nos Descobrimentos Marítimos, transformou o Algarve numa região estratégica e abriu um período de prosperidade para Faro, graças ao um porto seguro que permitia o comércio do sal e de produtos agrícolas, em particular os frutos secos que abasteciam as caravelas portuguesas. Para o desenvolvimento da cidade contribuiu bastante a comunidade judaica, largamente constituída por comerciantes e artesãos, entre os quais se encontrava o tipógrafo Samuel Gacon que, em 1487, imprimiu o Pentateuco, o mais antigo livro impresso em Portugal.

Em 1499, o Rei D. Manuel I patrocinou o desenvolvimento e a expansão urbana da cidade, com a criação de uma Alfândega, um Açougue (mercado de carne), e um Hospital no exterior da Vila-A-Dentro. Em 1540, o Rei D. João III elevou Faro a cidade e, em 1577, esta tornou-se sede do bispado do Algarve (substituindo Silves), assim ganhando definitivamente o estatuto de capital da região. 

Em 1596, em plena União Ibérica, os corsários ingleses do Conde de Essex atacaram e pilharam a cidade, causando grande destruição. Para além de incendiarem a maioria das igrejas, pilharam também as casas nobres e o Paço Episcopal, de onde roubaram uma valiosa biblioteca, atualmente depositada na Biblioteca Bobleiana da Universidade de Oxford.

O Grande Terramoto de 1755 abalou fortemente a região algarvia. Em Faro, onde terão morrido mais de duas centenas de pessoas, a maioria dos edifícios sofreu danos consideráveis. O declínio da cidade seria revertido graças ao bispo D. Francisco Gomes do Avelar (1789-1816), responsável por um importante programa de renovação urbanística e artística, onde se incluíram obras como o Arco da Vila (Monumento Nacional), o Hospital da Misericórdia e o Seminário Episcopal.

O século XIX foi um período de relativa prosperidade e desenvolvimento em Faro. Em 1805 abriu a primeira “Pharmácia” da cidade e em 1845 o benemérito, Dr. Lázaro Doglioni, inaugura o teatro Lethes, a mais bela sala de espetáculos do Algarve. No último quartel do século, implementou-se uma rede de esgotos e água canalizada e em 1889, foi inaugurada a Estação Ferroviária da capital algarvia. Em outubro de 1897 a Família Real deslocou-se ao Algarve, tendo ficado instalada no Palácio Episcopal de Faro. Nesta ocasião, o Rei D. Carlos e a Rainha D. Amélia visitaram o Museu Lapidar Infante D. Henrique, o Museu Marítimo e o Hospital da Santa Casa da Misericórdia.

Faro continuou a desenvolver-se durante o século XX. Em 1911 foi instalado o primeiro sistema de iluminação elétrica da cidade e, em 1926, abriu a delegação regional do Banco de Portugal. Em 1930 foi inaugurado o Café Aliança, um espaço onde, durante vários anos os grandes produtores e industriais algarvios estabeleceram o valor económico de produtos como a cortiça, a amêndoa, a alfarroba e o figo. Este café emblemático, um dos mais antigos do país, foi também o palco de inúmeras tertúlias, tendo recebido grandes vultos da cultura regional, nacional e mesmo internacional, como Amália Rodrigues, José Afonso e Simone Beauvoir. 

A inauguração do Aeroporto Internacional em 1965, abriu uma nova era na economia da região, e o 25 de Abril de 1974, veio reforçar a capitalidade de Faro, que beneficiou enormemente com a Fundação da Universidade do Algarve, em 1979, e a construção do Hospital Distrital, instituições que muito têm contribuído para o desenvolvimento desta cidade milenar, onde se fez, e se continuará a fazer história.


Fonte: Site da UF Faro

Faro - Das origens à atualidade

Os primeiros marcos remontam ao século IV a.C, ao período da colonização fenícia do Mediterrâneo Ocidental. Seu nome de então era Ossonoba, sendo um dos mais importantes centros urbanos da região sul de Portugal e entreposto comercial baseado na troca de produtos agrícolas, peixe e minérios. Entre os séculos II a.C e VIII d.C, a cidade esteve sob domínio Romano e Visigodo, vindo a ser conquistada pelos Mouros em 713.

Durante a ocupação árabe o nome Ossonoba prevaleceu, desaparecendo apenas no séc. IX, dando lugar a Santa Maria do Ocidente. No séc. XI a cidade passa a designar-se Santa Maria Ibn Harun. Capital de um efémero principado independente no séc. IX, a cidade é fortificada com uma cintura de muralhas e o nome de Ossonoba começa a ser substituído pelo de Santa Maria, a que mais tarde se junta a designação de Harune, que deu origem a Faro.

Na sequência da independência de Portugal, em 1143, o primeiro Rei de Portugal, D. Afonso Henriques e os seus sucessores iniciam a expansão do país para sul, reconquistando os territórios ocupados pelos Mouros. Depois da conquista por D. Afonso III, em 1249, os portugueses designaram a cidade por Santa Maria de Faaron ou Santa Maria de Faaram.

Nos séculos seguintes, Faro tornou-se uma cidade próspera devido à sua posição geográfica, ao seu porto seguro e à exploração e comércio de sal e de produtos agrícolas do interior algarvio, trocas comerciais que foram incrementadas com os Descobrimentos Portugueses.

No séc. XIV a comunidade judaica começa a ganhar importância na cidade. Uma das suas figuras mais relevantes foi o tipógrafo Samuel Gacon, responsável pela impressão do Pentateuco em Hebraico, sendo o primeiro livro impresso em Portugal no ano de 1487. A comunidade de Faro foi sempre uma das mais distintas da região algarvia e das mais notáveis do país, contando com muitos artesãos e muita gente empreendedora.

A manifesta prosperidade dos judeus farenses no séc. XV é interrompida pelo Édito emitido por D. Manuel I, em dezembro de 1496, no qual os expulsa de Portugal, caso não se convertessem ao catolicismo.

Assim, oficialmente e só neste sentido, deixaram de existir judeus em Portugal, o que, como é óbvio, também aconteceu em Faro. No local onde estava implantada a judiaria, na Vila Adentro, foi erigido o Convento de Nossa Senhora da Assunção com o patrocínio da Rainha D. Leonor, esposa de D. Manuel I.

Este monarca promoveu, em 1499, uma profunda alteração urbanística com a criação de novos equipamentos na cidade - um Hospital, a Igreja do Espírito Santo (Igreja da Misericórdia), a Alfândega e um Açougue - fora das alcaçarias e junto ao litoral.

Em 1540, D. João III eleva Faro a cidade e, em 1577, a sede do bispado do Algarve é transferida de Silves. Em 1596 o saque e o incêndio provocados pelas tropas inglesas lideradas pelo Conde de Essex danificaram muralhas e igrejas, provocando elevados danos patrimoniais e materiais na cidade.

Os séculos XVII e XVIII são um período de expansão para Faro, cercada por uma nova cintura de muralhas, durante o período da Guerra da Restauração (1640/1668), que abrangia a área edificada e terrenos de cultura, num vasto semicírculo frente à Ria Formosa.

Em 1 de novembro de 1755, a cidade de Lisboa é arruinada por um grande terramoto que devido à sua intensidade provocou, igualmente, estragos em outras cidades do país, sobretudo no Algarve.

A cidade de Faro sofreu danos generalizados no património eclesiástico, desde igrejas, conventos até o próprio Paço Episcopal. As muralhas, o castelo com as suas torres e baluartes, os quartéis, o corpo da guarda, armazéns, o edifício da alfândega, a cadeia, os conventos de S. Francisco e o de Santa Clara, foram destruídos e arruinados.

Até finais do séc. XIX, a cidade manteve-se dentro dos limites da Cerca Seiscentista. O seu crescimento gradual sofre um maior ímpeto nas últimas décadas.

Fonte: Site da CM Faro

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Gazeta do Algarve - Lagos em 1 de junho de 1875


As “passinhas do Algarve” na seca de 1875 ou o retrato social e económico da região


A década de 70 do século XIX foi dramática para os algarvios. Anos consecutivos de seca fizeram soar as campainhas de alarme na capital do reino, Lisboa, em maio de 1875.

Na verdade, o clima mediterrânico, onde o Algarve se insere, carateriza-se por uma precipitação baixa e irregular, sendo frequentes anos de estiagem, em alternância com outros mais húmidos, com cheias e inundações. Todavia, a seca por aqueles anos tornou-se medonha e com ela a fome e a sede ameaçaram aniquilar os algarvios.

Em 15 de julho de 1874, já o periódico lacobrigense “Gazeta do Algarve” noticiava a extraordinária seca que se sentia na região: “que esterilisou os nossos campos, destruiu regadios importantes e empobreceu fontes que nunca accusaram a falta ou carência absoluta d’água”.

Mas se aquele ano agrícola não deixou saudades, o de 1875 seria dramático. O céu não verteu uma gota de água, principalmente no barrocal e litoral, de tal forma que, na edição de 21 de abril de 1875, o mesmo jornal pressagiava “com a velocidade da successão do tempo vamos caminhando para uma crise alimenticia assustadora”, para depois acrescentar que “nenhumas esperanças há já de que a agricultura produza o sufficiente para a sustentação dos habitantes da província, nem pastos haverá em quantidade bastante para a alimentação do gado”.

A 2 de junho, o mesmo periódico fazia o balanço das colheitas na zona de Lagos, dizendo que, a produção era tão fraca, que, das searas, resultou uma semente e meia, e, do arvoredo, perspetivava-se um quarto do que seria colhido num ano normal. Em suma, uma calamidade abatia-se sobre o Algarve.

Com uma agricultura de subsistência, dois anos agrícolas maus comprometiam não só toda a alimentação, como inviabilizavam novas sementeiras. Afinal, apesar de terem sido deitadas à terra, as sementes não germinaram, ou, se tal aconteceu, não geraram nova semente. Também as árvores ameaçavam secar, mormente as figueiras, primordiais na economia regional, colocando em causa a produção anual e de vários anos subsequentes.

Numa época ainda longínqua para o estado social, onde a principal atividade da governança era a cobrança de impostos, a situação catastrófica da região, aliada aos gritos lancinantes dos algarvios, forçaram o governo a agir.

Assim, por portaria de 15 de maio de 1875, foi ordenado ao governador civil, o advogado José de Beires (Lamego, 1825-Lisboa, 1895), que percorresse todo o distrito com o objetivo de colher informações exatas acerca dos prejuízos causados pela falta de chuvas.

Aquele magistrado saiu de Faro a 23 de maio, iniciando a visita por Vila do Bispo, e sucessivamente percorreu todas as sedes dos concelhos e a maioria das freguesias da região, regressando à capital algarvia a 10 de junho.

É difícil imaginarmos as condições da viagem. É que, se por um lado e na sequência da Regeneração, avançava a construção de algumas vias macadamizadas, por outro a lentidão dos trabalhos e os parcos recursos faziam com que predominassem as velhas estradas medievais, quase sempre veredas.

Quanto ao caminho de ferro, além de um pequeno troço fantasma, construído entre Faro e Boliqueime, não descia além de Casével (Castro Verde), então a estação que servia o Algarve.

José de Beires reuniu-se com as autoridades locais (câmara e conselho municipal), os maiores contribuintes prediais, párocos e regedores das freguesias, deslocando-se ainda a uma ou outra aldeia, para se inteirar in loco das sequelas da longa estiagem.

Nas reuniões, recolhia informações sobre a gravidade da situação, bem como propostas para minorar a crise. Da sua visita, resultou um longo e detalhado relatório que enviou ao governo, com a descrição da conjuntura agrícola, económica e também social de todas as freguesias e concelhos do Algarve. Exposição complementada com sugestões que considerava pertinente executar para evitar a indigência dos algarvios.

A minúcia da sua descrição permite-nos hoje conhecer não só os efeitos da seca, em todas as freguesias, mas também as principais culturas que então se praticavam e a sua produtividade em anos regulares. É, pois, apoiados pela pena daquele magistrado, cujo relatório foi publicado na “Gazeta do Algarve”, que nos propomos revisitar o Algarve entre 23 de maio de 10 de junho de 1875.

Como se referiu, o governador iniciou o périplo pelo concelho de Vila do Bispo. Este compunha-se de serra inculta e extensos terrenos de lavoura, vivendo a população quase exclusivamente da agricultura. Tal como em toda a região, a propriedade encontrava-se muito compartilhada.

Pela quantidade de cereais que produzia e exportava, era considerado o celeiro do Algarve. Por sua vez, o número de árvores e vinhedos era diminuto, apenas junto das povoações e para “recreio”, como referia. Ainda assim, existiam algumas plantações novas de figueiras.

Quanto aos efeitos da seca em Budens, escreveu José de Beires:
“N’esta freguezia, como nas outras do concelho, cultiva-se apenas o trigo, cevada, raros centeios, grão, chicharo e milho. É, porém, no trigo que consiste a sua principal riqueza agrícola.
Apresentaram-se as searas com magnifico aspecto no principio do anno, e attingiram pela maior parte um desenvolvimento superior ás searas dos outros concelhos, especialmente nas chamadas — terras de dentro — terrenos baixos e verdes, que são por isso menos exigentes de copiosas chuvas. Mas, a final, a prolongada estiagem tolheu n’umas o completo desenvolvimento da espiga e produziu n’outras a sua morte prematura, restando apenas n’estas o feno e algum grão mirrado. Calcula-se que ainda assim a média da producção será de 50 por cento d’uma colheita regular. Das sementeiras serôdias nem a semente se espera”.

Relativamente às freguesias da Raposeira e Vila do Bispo, a situação era idêntica. Quanto a Sagres:
“É a freguezia que mais soffre com a estiagem. Tem os mesmos géneros de cultura, mas são maiores os estragos nas searas.
A producção ha de ser inferior á das outras freguezias. Ha também ali absoluta falta de agua potável. O destacamento militar que existe na praça de Sagres abastece-se da Villa do Bispo, que dista uns 6 kilometros”.

Da terra, já haviam inclusive emigrado alguns indivíduos para as minas. Em resumo, era em Sagres que a seca atingia o seu zénite no concelho, até pela carência de água potável. Por outro lado, a ausência de arvoredo no município não permitia colmatar, com os frutos, a fraca colheita de cereais.

Feito o diagnóstico de Vila do Bispo, José de Beires seguiu para Aljezur. No concelho, o arvoredo era escasso, oliveiras, sobreiros e laranjeiras eram as árvores principais. Também as vinhas eram aqui diminutas.

Sobre a Bordeira escreveu:
“É situada esta freguesia no interior da serra, e a sua cultura, quasi única, é de cereaes e milho. No sitio da Carrapateira, um dos melhores da freguezia, houve já no anno anterior grande escacez de colheitas, tendo os lavradores de recorrer a empréstimos para poderem occorrer ás despezas agricolas do presente anno. As searas apresentam-se melhores do que as do anno passado; mas em relação a um ano regular produzirão um terço a menos. No resto da freguezia apenas estão soffriveis as searas dos terrenos baixos. As sementeiras serodias consideram-se perdidas.”

Por sua vez, em Aljezur:
“Compõe-se esta freguezia, principalmente de terreno de serra, em grande parte inculto, e de uma extensa várzea, terra de primeira qualidade, cuja cultura, quasi exclusiva, foi de arroz e milho até 1872. A sementeira de arroz está hoje limitada a uma pequena area; no resto foi substituida, primeiro por milho e agora por trigo. As searas ali promettem abundante colheita, sendo talvez as melhores de todo o districto. Ainda assim os lavradores queixam-se da estiagem que não lhes permitte, depois das ceifas, aproveitar os mesmos terrenos para outra sementeira, como costumam. Fora da várzea, as searas, que são em muito maior quantidade, offerecem colheita escassa. Calcula-se, por isso que a producção geral da freguezia será inferior em um terço á de um anno regular.”

Na vila já se importava farinha, sendo que as sementeiras de milho, feijão e grão prognosticavam uma colheita muito inferior ao normal. Já em Odeceixe, a situação era semelhante à sede de concelho.

Em termos gerais, Aljezur era o município do Algarve que menos sofria com a crise alimentícia e para tal muito contribuía a várzea da ribeira.

Ainda assim, notava o magistrado que a ausência de trabalho levara alguns aljezurenses a emigrar, o que nunca sucedera em anos anteriores.

Como medida minimizadora, propunha a construção de um lanço da estrada distrital a partir de Aljezur, o que abonaria trabalho para a classe operária das três freguesias.

Visitados os concelhos de Vila do Bispo e Aljezur o governador civil partiu para Lagos, onde se encontrava em 28 de maio.

Informação retirada daqui
Autor: Aurélio Nuno Cabrita, engenheiro de ambiente e investigador de história local e regional, colaborador habitual do Sul Informação

As “passinhas do Algarve” na seca de 1875 ou o retrato social e económico da região – Lagos, Monchique e Portimão


Face à calamidade que se abatera sobre o Algarve, na sequência de dois anos consecutivos de seca, o governo foi forçado a agir, para minimizar a catástrofe que ameaçava aniquilar os algarvios.

Assim, por determinação governamental o governador civil de Faro, José de Beires, visitou todo o distrito, entre 23 de Maio de 10 de Junho de 1875, recolhendo informações sobre o real estado agrícola e social da província, bem como eventuais medidas, para atenuar a fome e sede que aterrorizavam os nossos trisavós.

Nesta sequência e após percorrer Vila do Bispo e Aljezur, dirigiu-se para Lagos, onde, a 28 de Maio, segundo o periódico local “Gazeta do Algarve”, à semelhança dos concelhos anteriores e subsequentes, José de Beires se reuniu com a Câmara, Conselho Municipal, os 40 maiores contribuintes, párocos e regedores das freguesias.

Lagos era então o maior produtor de figo do Algarve, arrolando também uma importante produção de amêndoa. Todavia, ambas as colheitas ameaçavam ser ainda mais diminutas que no ano anterior, de má memória.

As figueiras, definhadas, quase não haviam rebentado e as esparsas e mal desenvolvidas folhas já se encontravam amarelecidas, como se estivéssemos no Outono.

Pelo exposto, estimava aquele magistrado que a colheita média atingiria, quando muito e caso a longa estiagem não tolhesse o pouco fruto que apresentavam, a quarta parte de uma produção regular.

No concelho de Lagos, já eram visíveis árvores secas, sendo que um dos maiores produtores locais estimava o valor da perda de figueiras e amendoeiras na ordem de 1:000$000 réis.

Por outro lado, como lembrava José de Beires, o progressivo aumento do calor nos meses de Verão poderia causar a morte a grande parte do arvoredo adulto, inviabilizando, caso se concretizasse, as colheitas durante vários anos, o que constituiria “o maior de todos os prejuízos”. Vejamos agora, guiados pelo seu relato, os prejuízos em cada freguesia.

Em Bensafrim:
“É a freguezia que confina com a serra, e que menos prejudicada se acha com a falta de chuvas. O arvoredo (figueiras) comquanto apresente um aspecto pouco productivo, não se tem perdido. Os cereaes serão um terço a menos de uma colheita regular. As sementeiras serôdias é que não produzirão a semente”.

Se, na área serrana do concelho, as consequências da estiagem não eram avassaladoras, o mesmo não acontecia junto ao litoral.

Na Luz:
“O arvoredo, principal riqueza d’esta freguezia, acha-se consideravelmente deteriorado, e algum está já perdido. As searas em péssimo estado. As únicas soffriveis são as que se encontram nas terras limpas de arvores, nas proximidades de Espiche e Almadena, e que constituem uma insignificante parte da freguezia. A producção media de cereaes foi calculada em duas sementes; e a do figo na quarta parte de uma producção regular. Do serôdio, nem a semente.”

Quanto à freguesia de Odiáxere:
“Arvoredo em geral pouco promette. As searas pela maior parte não produzirão a semente, só as que se acham nas varseas dão esperança de dobrar a sementeira. Os serôdios, ainda mesmo chovendo, pouco ou nada produzirão.”

Por fim as freguesias da cidade, em Santa Maria:
“É a freguezia que se acha em peiores circumstancias, por ser aquella onde apparece mais considerável perda de arvoredo. As searas nem feno produziram, são colhidas á mão, e assim levadas aos palheiros. Dos legumes nada ha a esperar.”

Em S. Sebastião:
“O arvoredo em mau estado. As searas só no paul produzirão 3 a 4 sementes, quando a producção regular é de 12 a 15. No resto da freguezia poderá esperar-se, quando muito, uma semente. A agua vae escasseando nas noras e poços.”

Os lacobrigenses, principalmente do litoral, estavam duramente afetados pelo longo estio, não só pelas parcas colheitas de cereais, mas também pela perda de arvoredo, inexistência de produtos hortícolas e até o abastecimento público poderia estar em causa a breve trecho.

A tudo isto juntavam-se os salários, que haviam descido comparativamente com anos anteriores. Quanto a medidas de mitigação, José de Beires sugeria a construção do primeiro lanço da estrada distrital de Lagos a Aljezur, o qual permitiria “occupar muitos braços disponíveis e remediar muitas necessidades”.

Feito o diagnóstico em terras de São Gonçalo, o governador prosseguiu para Monchique. Este concelho, pela sua localização serrana, apresentava algumas singularidades, desde logo não tinha amendoeiras ou figueiras, então a principal riqueza do Algarve, no entanto não era pobre, antes pelo contrário.

Nele abundavam castanheiros e pomares de laranjeiras, pereiros e outras árvores, as quais, face à abundância de nascentes de água, eram irrigadas frequentemente.

Em resultado, abastecia de frutas e madeiras de castanho toda a região, além de exportar quantidade expressiva para outros locais. Note-se que a reputação dos peros de Monchique chegou aos nossos dias.

A tudo isto e em oposição ao Baixo Algarve, ali havia chovido naquele Inverno, embora não tanto como o habitual, encontrando-se algumas nascentes esgotadas. José de Beires calculava que a disponibilidade de recursos hídricos apenas permitia irrigar metade dos terrenos, relativamente a anos regulares, existindo nos monchiquenses algum temor pela perda de árvores.

Observemos agora os principais danos em cada freguesia.
Sobre o Alferce escreveu o governador:
“É a freguezia menos productora do concelho. Tem cultura insignificante de cereaes, milho e feijão. Todas as sementeiras apresentam soffrivel aspecto, especialmente depois das ultimas chuvas que ali caíram. O arvoredo, cultura principal, não está tão desenvolvido como nos annos regulares. Receiam os proprietários perda de fructo porque as nascentes vão seccando, faltando por isso agua para regar todo o arvoredo”.

Na outra extremidade do município, em Marmelete:
“Tem boas searas, e as sementeiras serôdias podem dar uma producção regular, continuando a chover. O arvoredo, no mesmo estado do do Alferse”.

Quanto à vila:
“Monchique tem poucas searas e essas soffriveis. O milho e feijão, como na freguezia do Marmelete. O arvoredo no mesmo estado. Alguns proprietários informaram ter já perdido algumas árvores, por falta de regas, e que o fructo é em geral escasso”.

Não obstante estas contrariedades, Monchique era o concelho menos atingido pela calamitosa seca.

Em situação diferente encontrava-se Vila Nova de Portimão, município examinado de seguida. Aqui abundava o pomar tradicional de sequeiro, a amendoeira, figueira e alfarrobeira, sendo os prejuízos provocados pela estiagem superiores aos de Lagos. Havia mais árvores secas e as que subsistiam apresentavam menos fruto, encontrando-se as folhas em queda adiantada, principalmente junto à costa.

As searas, na generalidade, nem feno haviam produzido, e sem ele faltava alimento para os gados. A juntar a tudo isto, os melhores terrenos apresentavam o pior aspeto.

Em termos de freguesias principiemos pela Mexilhoeira Grande, guiados pela pena daquele excursionista:
“A sua cultura principal é de arvoredo – figueiras, amendoeiras e oliveiras. Todas se acham em deplorável estado, havendo já a perda de muitas amendoeiras e figueiras. A producção d’estas será de uma vigessima parte de uma colheita regular. As oliveiras perderam toda a flor sem deixar fructo. Quanto a cereaes, bem poucos colherão um décimo de uma producção ordinária. A maior parte das searas apenas apresentam palha e tão curta que só pôde ser apanhada á mão. As sementeiras serôdias irremediavelmente perdidas”.

Já em Alvor:
“A sua riqueza principal consiste em vinhas. Apresentam abundância de cachos, mas receia se que a estiagem prejudique o seu desenvolvimento. As outras culturas não estão melhores do que as da freguezia da Mexilhoeira”.

Por fim, Vila Nova de Portimão:
“Exceptuando as searas da várzea do Boina, pertencente ao Reguengo, que estão superiores ás de um anno regular, todas as mais estão em idênticas circumstancias ás das outras freguezias. Do mesmo modo as sementeiras serôdias e o arvoredo, que em alguns sitios se acha já perdido”.

A situação económica e social dos portimonenses era pois periclitante, sem trigo, azeite ou frutos secos, a que se adicionava a ausência de forragens para os animais, quanto muito teriam uvas de Alvor. Ainda assim, por motivos que ignoramos, José de Beires não elencou qualquer medida de mitigação.

Melhor sorte não tinha Lagoa, na outra margem do Arade, para onde aquele magistrado se dirigiu, não pela ponte rodoviária, que se encontrava em construção desde o ano anterior, mas certamente pela barca de passagem, dado que primeira só ficaria concluída em Julho de 1876.

Mas estes eram outros constrangimentos de uma região em crise e sedenta de apoios para não sucumbir. Já em Ferragudo, o governador observou “as mais deploráveis condições” …
(continua)

Informação retirada daqui
Autor: Aurélio Nuno Cabrita, engenheiro de ambiente e investigador de história local e regional, colaborador habitual do Sul Informação

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Época Bárbara


Apesar de ter sido conquistado pelos chamados povos bárbaros (vândalos, alanos, suevos e depois visigodos) na época ou período das migrações ou invasões bárbaras, a cultura romana e o cristianismo permaneceram. No ano de 552, o atual Algarve foi reconquistado pelo Império Romano do Oriente ou Império Bizantino (então governado pelo imperador Justiniano I), aos visigodos, governo esse que durou até 571, quando o rei Leovigildo o conquistou novamente para o reino visigodo.


Noticia retirada daqui

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

O Algarve na Época Romana


Época Romana
Antes da integração definitiva dos cónios no Império Romano, durante o período que vai de cerca de 200 a.C. a 141 a.C. estes estavam sob forte influência romana mas gozavam de elevado grau de autonomia. Devido, em parte, ao relacionamento favorável com os romanos, os cónios haviam tido alguns conflitos com os lusitanos que, sob a liderança de Cauceno (Kaukenos), o chefe lusitano anterior a Viriato, tinham conquistado durante algum tempo o seu território, incluindo a capital, Conistorgis (de localização ainda desconhecida, num monte a norte de Ossonoba, atual Faro, ou talvez Castro Marim?) no ano 153 a.C. Em parte devido a esse conflito com os lusitanos e em parte devido à influência cultural das civilizações mediterrânicas, ao contrário de muitos dos povos pré-romanos de Portugal, foram aliados dos romanos durante algum tempo e não seus adversários, diferindo da atitude de outros povos tais como os lusitanos, os célticos e os galaicos, que foram fortes opositores à conquista romana. 


Apesar disso, um pouco mais tarde, no contexto das guerras lusitânicas, no ano 141 a.C., os cónios revoltaram-se contra os romanos, juntamente com os túrdulos da Betúria (também denominados betures), mas foram derrotados por Fábio Máximo Serviliano, procônsul romano, e integrados definitivamente no Império Romano. Nos séculos que se seguiram, a população nativa (cónios) foi fortemente romanizada, adotando o latim como língua, e integrada em termos culturais, políticos e económicos na civilização romana e no seu império. O Algarve, então denominado Cyneticum (Cinético), fez parte do Império Romano, integrado primeiro na província da Hispânia Ulterior e, mais tarde, na província da Lusitânia, durante mais de 600 anos, desde cerca de 200 a.C. até ao ano 410 d.C., ostentando cidades relevantes tais como Baesuris (atual Castro Marim), Balsa (próxima de Tavira), Ossonoba (atual Faro), Cilpes (atual Silves), Lacobriga (atual Lagos e Myrtilis (atual Mértola) ) pois, nessa época, também pertencia ao Cyneticum. Durante a época romana, teve um desenvolvimento cultural e económico significativo (agricultura, pesca e manufatura), beneficiando muito do facto de ser uma importante região de produção agrícola. 

Nessa época, a região exportava principalmente azeite e garum (um condimento feito a partir de peixe), ambos os produtos eram muito apreciados no Império Romano. A sua localização geográfica também era importante em termos de apoio às rotas de navegação marítima entre os portos romanos do mar Mediterrâneo e os do Oceano Atlântico, na Hispânia, Gália e Britânia. Os rios Guadiana (Anas) e Arade (Aradus) serviam de rotas de navegação fluvial de contato com o interior e continuariam a sê-lo durante muitos séculos. Também, em termos de localização geográfica, foi importante o facto da região estar logo a oeste da Bética Bética (que corresponde, em grande parte, ao território da atual Andaluzia), uma das províncias cultural e economicamente mais desenvolvidas da Hispânia e do Império Romano (região de origem de importantes figuras tais como o erudito e filósofo Séneca, o agrónomo Columela e dos imperadores Trajano e Adriano).

Todos estes factores contribuíram para a prosperidade do Algarve durante muitos séculos. Em termos culturais, a época romana também assistiu à difusão do cristianismo na Hispânia, incluindo a Lusitânia e atual Algarve a partir de meados do século I d.C., mas seria a partir do século IV d.C., com a publicação do Édito de Milão, no ano 313 d.C. pelo imperador Constantino (que concedia liberdade de culto aos cristãos), que o cristianismo se difundiria mais e ganharia importância significativa na região com a conversão de muita da população nativa, embora as religiões animistas ou pagãs tenham permanecido durante mais alguns séculos.


sexta-feira, 30 de agosto de 2013

O Algarve na Época Pré-Romana


Época Pré-Romana 
Na época pré-romana era habitado pelos cónios, cúneos ou cinetes , um povo (formado por várias tribos) de filiação linguística e étnica possivelmente celta ou ibera, cujo território incluía toda a atual região e ainda o sul do atual distrito de Beja. Esse antigo território dos cónios ia da foz do rio Mira à foz do Guadiana, pelo litoral, e da foz do rio Mira passando pela área das nascentes do rio Sado e pelas ribeiras de Terges e de Cobres até à confluência desta última com o Guadiana e descendo pela margem direita ou oeste desse rio novamente até à sua foz, pelo interior, abrangendo assim toda a área da Serra do Caldeirão (também denominada Serra de Mu) e seu planalto. É possível que fossem relacionados com os tartessos (povo cuja filiação linguística e étnica também ainda não está plenamente conhecida ou determinada), mas não eram o mesmo povo, tal como diversos autores da Antiguidade clássica, por exemplo, Estrabão e Plínio, o Velho, afirmavam. Devido ao nome do povo nativo, conii ou cynetes (cónios ou cinetes em latim), o Algarve, na época romana, era denominado Cyneticum (Cinético) . O território deste povo situava-se muito próximo de uma antiga civilização nativa da Península Ibérica, a de Tartessos (que se desenvolveu no oeste da atual Andaluzia), na bacia do rio Guadalquivir (antigo Betis). Devido a isso, os cónios foram muito influenciados por esta antiga cultura ou fizeram mesmo parte dessa civilização. Também foram influenciados pelas civilizações mediterrânicas (grega, romana, cartaginesa) ainda antes da época romana e eram um dos povos culturalmente mais avançados do atual território de Portugal e mesmo da Península Ibérica de então, pois já tinham conhecimento da linguagem escrita, tendo mesmo criado e desenvolvido uma escrita própria, a escrita do sudoeste, que também pode ser designada escrita cónia. Durante séculos, o atual Algarve (então denominado Cyneticum) foi ponto de passagem para vários povos, incluindo tartessos, fenícios, gregos e cartagineses.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

História do Algarve


O Algarve da palavra Árabe (الغرب, al gharb) que significa "o oeste" é a região mais a sul de Portugal continental. Com uma área de 5 412 km² e uma população de 451 005 habitantes (Censos 2011)2 (0,06% da população da Europa e 4,27% da população de Portugal), constitui a região turística mais importante de Portugal e uma das mais importantes da Europa. O seu clima temperado mediterrânico, caracterizado por Invernos amenos e curtos e Verões longos, quentes e secos, as águas tépidas e calmas que banham a sua costa sul, as suas paisagens naturais, o património histórico e etnográfico e a deliciosa e saudável gastronomia são atributos que atraem milhões de turistas nacionais e estrangeiros todos os anos e que fazem do Algarve a região mais visitada e uma das mais desenvolvidas do país. O Algarve é actualmente a terceira região mais rica de Portugal, a seguir a Lisboa e à Madeira, com um PIB per capita de 86% da média da União Europeia.